domingo, 17 de fevereiro de 2008

Ópera Sangrenta

Tim Burton é um nome que eu guardo na memória desde o ano de mil novescentos e oitenta e nove. Ano em que o primeiro "Batman" foi lançado nos cinemas, fazendo sugir a Batmania.
Lembro que eu fui infectado por essa coqueluche daquela época e tinha tudo o que era merchandaising do filme. De adesivos até a uma concorrido disco de vinil com a trilha sonora do filme composta por Prince, que foi prometida de presente pelos meus pais, caso eu decorasse toda a tabuada em um final de semana inteiro.
Decorada a tabuada, conquistei de prêmio aquele bolachão preto que tinha estampado na capa aquele morcegão com asas abertas sob um fundo amarelo ouro. Na contra-capa, tinha-se abaixo a ficha técnica do filme e o nome do diretor estava bem destacado.

Até aquele momento, o único Tim que eu conhecia, era Tim Maia. Mas logo guardei aquele nome, pois sabia que esse diretor teria uma carreira promissora cheia de cartas na manga.
Por um lado eu estava um pouco enganado. Tim Burton teve uma carreira de altos e baixos, mais baixos do que altos, com obras muito fracas como "Peixe Grande" e "A Fantástica Fábrica de Chocolate".
Mas heis que agora ele volta com aquilo que o fez ficar conhecido como um diretor gótico, onde sempre se deixou levar pela paixão do tom macabro em suas obras (A Noiva Cadáver, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça). "Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet" (Sweeney Todd - The Demon Barber of Fleet Street, EUA, 2007) é ao meu ver uma resposta feroz e ousada de que Tim Burton sabe o que quer, mesmo fazendo um trabalho por encomenda.
Um filme sagrento e maravilhosamente estranho para ser feito por um grande estúdio, já que ele é nada mais nada menos do que um grande espetáculo "gran-guinol", famosos estilo de ópera que mistura sangue e humor.

O diretor aqui se esforça muito e consegue contar com esmero a estória de Benjamin Barker, vivido por Johnyy Deep em sua sexta parceria com Burton. Benjamin é um típico barbeiro inglês que vive com sua esposa e filha. A beleza da sua esposa, desperta o interesse do juiz Turpin (Alan Rickman em perfeita interpretação). Que faz com que o pobre barbeiro seja preso e enviado a Austrália, tudo para que o juíz possa se aproveitar da esposa e filha de Benjamin.
Quinze anos depois, Benjamin Barker retorna a Londres com a identidade de Sweeney Todd. Seu retorno traz consigo o gosto voraz da vigança por aquele que destruiu a sua vida.

Chegando a sua antiga casa, Sweeney (Benjamin) se depara com o local que agora serve como a loja de tortas da Sra. Lovet (Helena Boham Carter). Suas tortas são conhecidas como as piores da cidade. Mas essa personagem vai servir de ligação entre Sweeney e o seu triste passado. Pois a Sra. Lovett é a única que sabe do paradeiro da sua esposa e filha Johanna, que agora vive sob a tutela do juíz Tupin.
Sweeney então decide reabrir seu salão para servir como matadouro (no melhor sentido da palavra) para suas vítimas.
Depois de um desfio em praça pública com o melhor barbeiro do local, o italiano Adolfo Pirelli (Sacha Baron Cohen em rápida e magistral aparição), Sweeney logo ganha a fama de todos. Inclusive a do empregado do juíz, na qual sem saber faz com quê o seu patrão esteja caindo nas garras daquele que lhe jurou a morte.
Johanna é o retrato vivo da inocência perdida, já que são apresentados alguns momentos em que ela é observada pelo juíz através de um buraco feito na parede do seu quarto. O que dá aquela idéia de que ela sofria abusos de pedofília por parte de juíz e na qual também o mesmo decide se casar com a frágil garota. Fazendo assim, surgir um triângulo amoroso entre o juíz e o marinheiro Anthony (Jamie Campbell Bower), que foi responsável pelo resgate de Sweeney no mar após sua misteriosa fuga da prisão.

O que vai se denrolar a partir daí, é um festival de violência gráfica que pode afastar as tíetes que vão apenas conferir um pálido e assustador Johnny Depp soltar a voz nas músicas compostas por Stephen Sondheim. E ele consegue muito bem, mesmo que sua voz não esteja a altura exigida pelos grandes palcos da Broadway, onde o musical foi encenado pela primeira vez no ano de mil novescentos e setenta e nove.
Mas quem já teve a oportunidade de ler algo sobre essa famosa lenda urbana inglesa ou até mesmo ter assistido a montagem desse musical em alguma parte do mundo, sabe que o filme fala de uma sangrenta estória de amor. Isso mesmo! Toda essa violência que enxarca a tela com sangue é uma linda estória de amor e vingança de um personagem que vive sendo assombrado por um passado amargo. E quem se beneficia disso tudo é a Sra. Lovett, que entra como cúmplice dos assassinatos cometidos pelo barbeiro serial killer para ganhar fama com suas tortas. O que ambos fazem é utilizar a carne humana dos cadáveres para usarem como recheio para as tortas que logo virão a ser a sensação de Londres.

Além de toda esse banho de sangue, outra coisa também pode vir a incomodar algumas pessoas. Noventa por cento dos diálogos do filme são cantados. Mas isso não faz de modo algum com que o filme torne-se chato ou enfadonho. Mesmo que não tenha aquele números musicais memoráveis e músicas sútis quase que faladas, isso pode afastar aqueles que detestam ver atores cantarolando em cena.
Mas quem conseguir se segurar um pouquinho, verá que estará diante de um produto cinematográfico perto de uma obra-prima memorável. Vale ressaltar que a direção de arte criada pelo italiano Dante Ferreti (colaborador de Fellini por muitos anos e responsável também pela direção de arte de "Gangues de Nova York), cria uma Londres do século dezenove escura e nublada. Onde nos dar a impressão de que em qualquer esquina ou beco sairá um vampiro ou até mesmo um lobisomem. Os figurinos de Collen Atwood ajudam a compor o clima de decadência em grande estilo, junto com a fotografia de Emmanuel Lubezk que cria excelentes contrastes entre o claro e o escuro, nos dando a impressão de um pintura.
Os arranjos musicais feitos por Jonathan Tunick(parceiro de Sonhein de muitos anos), ajuda a dar aquela beleza musical presente nas principáis óperas, com lindos arranjos de cordas.

Enfim, todo esse background serve para abrilhantar ainda mais esse visceral banho de sangue operístico. E assim como aquele disco, que era fruto de uma obra desse gênial diretor, que ganhei como prêmio naquele final de semana do ano de oitenta e nove...Me sinto mais uma vez premiado com essa outra obra. Bravo, Tim Burton!


Cotação: Ótimo

2 comentários:

Daniel Peixoto disse...

tava doido pra ver esse filme...

Tim Burton é um gênio, pqp...


bjs!

jpaashaus disse...

Bem,não vi esse filme,e não conheço bem o ator,mas pelo o que eu li sobre o mesmo, me parece muito interessante.