segunda-feira, 7 de abril de 2008

Amargo Pesadelo


Tramas sobre sequestros tem se tornado algo muito abordado nos últimos anos pelo cinema. Mas são raros aquelas obras que conseguiram ser eficientes nas suas tramas. A falta de originalidade tem sido o mais grave dos problemas.
O cineasta franco-holandês George Sluizer conseguiu ser original dentro desse gênero tão batido, criando um thriller psicológico completamente original, perturbador, sufocante, assustador e magnético. Trata-se do cultuado "O Silêncio do Lago" (Spoorloos, França/Holanda, 1988).
Baseado em um romance intitulado "O Ovo Dourado", a obra faz uma investigação dentro dos desejos de dois homens completamente distintos entre si, mas ligados pela mesma tragédia. Simples? Não, não! Bastante sofisticado e engana a todos nós. Pois estamos diante daquele típico caso em que achamos que vai ser de um jeito, quando na verdade será de outro.
O desenrolar da trama, acompanhamos Rex (Gene Bervoets), um escritor holandês que teve a sua namorada Saskia (Johanna ter Steege) tida como desaparecida. A moça sumiu quando entrou numa loja de conveniência a beira da estrada, para comprar um refrigerante.
Tudo é surpreendido, quando o diretor muda o foco da trama de uma maneira bastante radical. Na narrativa clássica, o estilo seria aquele de "quem é o criminoso?". Mas isso é logo quebrado quando desde o início já somos apresentados ao sequestrador, um pacato e sinistro professor de química (Bernard-Pierre Donnadieu). Então, ao invés de simplesmente acompanhar a investigação efetuada por Rex, Sluizer põe o espectador numa posição incômoda e incomum. De um lado, sabemos bem mais do que Rex, já que conhecemos a identidade do criminoso. E quando chegamos ao final do filme e temos a resposta à pergunta (o que realmente aconteceu com Saskia?), é simplesmente inesquecível.
Lembro que ví esse filme em noventa em cinco numa cópia ainda em vhs. E até hoje essa obra-prima permanece como um produto insuperável em todos os sentindos.
Cotação: Excelente.

Um Lixo Delicioso


É um pouco estranho falarmos de um gênero que é odiado por uns e amados por outros. Claro que os amantes desse gênero, conseguem enxergar algum tipo de arte contra-cultural invertida em um produto feito a toque de caixa.
Já para os grandes gênios da sétima arte, essas obras são passivas de serem tachadas por underground, pornográfica e...LIXO!!!
Mas como toda regra tem sua exceção, dois grandes nomes do cinema pop atual são amantes desse gênero que era precisa confirmada nas antigas matinês dos cinemas mambembes de subúrbio dos anos setenta. São eles: Quentin Tarantino e Robert Rodriguez.
Como se sabe, a mente insana desses dois, foram capazes de criar pérolas do cinema atual como "Kill Bill" (Tarantino) e "Sin City" (Rodriguez).
A experiência de ver a "Planeta Terror" (Planet Terror, EUA, 2007), foi uma das coisas mais gostosas (no melhor sentido da palavra) de se assistir. Nascido de um projeto chamado "Grindhouse", que consistiam em dois filmes exibidos numa única sessão (o outro seria "Prova de Morte" de Tarantino), os dois cineastas queriam nos dar a sensação de estarmos diantes daquelas sessões dos citados cinemas de bairro que ofereciam sessões duplas numa única tarde a preços módicos.
Mas minha intenção nesse post é apenas avaliar o filme "Planeta Terror". Pois ainda não ví a segunda parte do projeto e lastimo profundamente porque sei que nunca irei vê-lo da forma que foi imaginada pelos diretores. Pois nos EUA onde esses tipos de sessões eram comuns, a recepção por parte do público foi amena... imagina aqui no Brasil?
O que temos aqui, é um autêntico filme de zumbis: depois de um acidente um cientista colecionador de testículos humanos (Naveen Andrews) e um militar durão (Bruce Willis super canastrão), um gás venenoso é liberado sobre uma cidade do interior do Texas. O produto provoca queimaduras que aos poucos vão transformando os moradores da cidade em zumbis canibais. O resto do filme...os sobreviventes vão tentar sobreviver como podem ao ataque dos seres gosmentos. Até direito a metralhadora no lugar de uma perna amputada está valendo!!!
“Planeta Terror” é filho legítimo de Robert Rodriguez, exibindo visível fascinação pela cultura trash de excessos dos anos 1970 e caprichando nos excessos de violência gráfica (“Sin City”) e no humor bêbado (“Era uma Vez no México”) que caracterizam a obra anterior do diretor. O trabalho de edição favorece as seqüências de ação alucinadas, mas o cineasta não esquece de acrescentar piadas à mistura. Em determinada cena, por exemplo, um personagem foge de zumbis pilotando uma mini-moto que faz uma Scooter parecer um caminhão. Noutra, com ponta de luxo de Quentin Tarantino, há quantidade suficiente de gosma e sangue falso para encher uma piscina olímpica. Eca!
Detalhe também para o tratamento digital que Rodriguez deu ao filme, fazendo-o parece um produto antigo, cheio de arranhões na imagem e falhas no som.
Cotação: Bom

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Viagem à Loucura


Muitos cineastas são lembrados por aquele filme que se tornou um ícone na sua carreira, sendo ela uma obra-prima ou não. No caso de Martin Scorcese, o seu filme síntese, é sobre um ex-combatente do Vietnã. Um sujeito solitário e entediado com sua vida monótona, que passas as suas noites de insônia trabalhando como taxista.
"Taxi Driver" (Taxi Driver, EUA, 1976) é o ápice na carreira de Scorcese. Pode até não ser o melhor ou omais bem acabado filme do diretor nova-iorquino, mas é com certeza o filme que deu uma larga extensão em sua carreira.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, "Taxi Driver" possui elementos de um cinema inovador. Definido pelo próprio diretor como uma mistura dos filmes de Godard com os de John Huston, Scorcese faz dessa sua obra uma crítica urbana com uma excelente narrativa social.
Travis Bickle (Robert De Niro) é o personagem em questão. Noite após noite, Travis vagueia com seu táxi pelos guetos de Nova York, cheios de prostitutas, negros, cafetões, drogados e assaltantes. Ao dia, Travis perambula como um zumbi por cinemas pornôs ou então vê o tempo passar confinado em seu apartamento.
Sua vida enfadonha começa a criar ares de revolta, quando ele conhece Betsy (Cybill Shepherd), uma funcionária de uma campanha para a eleição à presidência de um famoso senador. A partir daí, Travis começa com uma certa paixão pela moça, que faz os seus flertes estacionando seu táxi em frente ao comitê de onde Betsy trabalha e dando longos olhares de paquera.
Mas então, entra em cena a prostituta Iris Steensma (Jodie Foster) uma garota de doze anos, que vive a soberânia de Sport (Harvey Keitel), seu namorado e cafetão. Esses dois cruzamentos com diferentes figuras femininas, irão complicar ainda mais a mente do ex-soldado. O resultado final, é um banho de sangue de proporções dantescas.
Em um opinião muito pessoal, dificilmente Martin Scorcese atingiu tanto talento como fez em "Taxi Driver". Um filme bastante tenso e violento, que continua a cada dia mais atual do que quando feito em sua época. Os longos diálogos mostrados em cenas, só servem para sustentar ainda mais o clima de desprezo e angústia sentido pelo personagem de Travis Bickle. A bela fotografia com cores saturadas e muitas imagens de cenas noturnas com uma bela trilha de jazz de Bernard Herrmann, contribuem em muito para a trama. Poucos cineastas foram capazes de envolver tanto o público como Scorcese.
Cotação: Ótimo
P.S: Não vou comentar sobre o Oscar, pois só conseguí assistir a três dos filmes que estavam na lista dos indicados. Foram eles: "Sweeney Todd" (Crítica já postada), "Piaf", Ratatouille" e "O Caçador de Pipas" (Também já com a crítica postada). Dos indicados ao prêmio de melhor filme, ainda não ví nenhum. Mas, logicamente, quero ver "Onde Os Fracos Não Tem Vez" o mais rápido possível.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Vida de Ilusão


A primeira metade dos anos setenta, foi marcada por grandes movimentos sociais que incluiam: a liberação do feminismo e o protesto contra a guerra do Vietnã.
Mas também foi uma década marcada por grandes filmes que se tornaram clássicos instâtaneos, como exemplo de "O Poderoso Chefão" de Francis Ford Coppola.
Muitos jovens cineastas também viriam a surgir nesse período, influênciado pela onda chamada de "Nova Hollywood". Um desses nomes mais destacados, viria a ser o de Peter Bogdanovich. Promissor cineasta que em mil novescentos e setenta e um, encantava o mundo com o seu "A Última Sessão de Cinema".
Dois anos depois, Peter viria a realizar uma nostálgica comédia ambientada duranto o período da grande depressão.
"Lua de Papel"(Paper Moon, EUA, 1973), situado no ano de mil novescentos e trinta e cinco, tem como principal atrativo, os dois carismáticos personagens. Ryan O'Neal e Tatum O'Neal, pai e filha na vida real, fazem os personagens de Moses Pray e Addie.
Moses (Ryan O'Neal) faz um vigarista na época da lei seca, que viaja vendendo bíblias a víuvas. Addie (Tatum O'Neal) é uma orfã (fumante) de nove anos, que após a morte de sua mãe, é entregue aos cuidados de Moses, que recebe a incubência para a menina do Kansas até o Missouri.
Moses odeia essa idéia e faz de tudo para se livrar de Addie o mais rápido possível. Só que ele logo via descobrir, que a garota é tão astuta quanto ele.
O grandes méritos do filmes, são: a linda interpretação de Tatum O'Neal, que a fez receber um Oscar de atriz coadjuvante e também ser a mais jovem a ganhar o prêmio. A eloquente fotografia em preto e branco do húngaro Láslo Kovács, que aceitou a sugestão de Orson Welles para utilizar filtros vermelhos, fazendo com que eles aumentassem os contrastes e abrindo largos pontos de luz branca nos rostos dos personagens. A direção de Peter Bogdanovich, que confia no elenco e deixa os atores quase que a vontade. Fazendo assim, a química entre Ryan e Tatum ser perfeita.
Uma comédia em tom de farsa, uma bela mistura de "O Garoto" com "Bonnie e Clyde".
Pena que pai e filha nunca mais viriam a trabalhar juntos novamente. Tatum nunca mais viria a conseguir outro grande papel no cinema e seu temperamento explosivo, fez com que pai e filha brigassem e passassem anos sem se falar. Fica então a lembrança.
Cotação: Bom

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Um Elefante Que Incomoda Muita Gente


Estranho não só pelo título. Mesmo tendo levado a Palma de Ouro em Cannes em dois mil e três, o mesmo não consegue escapar dessa estígma de um filme lento e aparentemente vazio.
O universo da juventude norte-americana tratada por Gus Van Sant, é encarregado dessa estranha sensação dentro de um filme com apenas oitenta minutos, mas que parece ocupar quase quatro horas de projeção. A vida desses jovens é tão vazia e vagarosa quanto o filme, que é talvez um dos mais singulares trabalhos cinematográficos feito pela indústria do cinema.
"Elefante" (Elephant, EUA, 2003), é um retrato vivo da obsessão dos jovens pela violência. Diga-se de passagem que o argumento do filme foi inspirado no massacre da escola Columbine em abril de mil novescentos e noventa e nove. Onde os jovens Erick Harris e Dyla Klebold, entraram na instituição de ensino e saíram atirando contra professores e alunos.
O mesmo tema serviu também como base para o ótimo documentário "Tiros em Columbine", de Michael Moore.
O tema aqui, é tratado pelo diretor como uma releitura do fato. Não seguindo de fato a risca de como tudo aconteceu ou dando os nomes reais aos personagens do filme, nem a escola e muito menos a cidade onde realmente tudo aconteceu.
A intenção de Gus Van Sant, era de mostrar que o que aconteceu em Columbine, poderia acontecer em qualquer outro local.
Em quase todo o filme, somos meros espectadores que observamos de perto o dia a dia de uma escola comum. Onde todos os alunos assistem aulas, entram e saem de salas, passeam por corredores, conversam um com os outros, namoram, marcam encontro...Enfim, um verdadeiro tour "colegial" por dentro dos sentimentos de cada um. Tudo muito bem acompanhado pelo excelente trabalho de Stand-Cam que em muitos momentos, nos faz lembrar de "O Iluminado" de Kubrick.
Algumas cenas são repetidas no filme em ângulos diferentes a cada vez. O que faz termos outras pespectivas de cada personagem.
O filme atira para todos os lados, fazendo com quê não consiga vizualizar um alvo central e encaixar a trama de uma forma redonda. Mas mesmo assim, possui uma estranha emoção que de um maneira muito particular (pelo menos pra mim), faça com que temos a sensação de que estamos sendo atinjidos por um peso de dez toneladas. Algo que talvez faça justiça ao nome do animal que dá título ao filme.
Cotação: Bom

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Está Chegando a Hora!!


Domingo dia 24/02, é o dia mais esperado para os cinéfilos. Será a noite da maior festa do cinema, a entrega do Oscar.
Confesso que estou muito surpreso com os filmes indicados a categoria de melhor filme. Dois deles, são de diretores com muito prestígio e com filmes exibidos em Cannes e outros festivais importantes. É o caso de "Onde os Fracos Não Tem Vez" dos irmão Coen (o meu favorito) e "Sangue Negro" de Paul Thomas Anderson.
A supresa para alguns também, foi para a não indicação de "O Ano em Que Meus Pais Sairam de Férias". Filme que particularmente não me encheu muito a vista, mas que teria grandes chances de sair vencedor esse ano.
No mais, é só esperarmos pela noite do domingo e conferirmos tudo. Hoje meu dia foi puxado e não vou postar nenhuma crítica de filme aqui no blog. Espero poder fazer isso no final de semana!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Pérola Americana



É difícil no mundo atual, alguém que não tenha visto ou pelo menos ter ouvido falar em Woody Allen. Aquele sujeito baixinho, de cabelos alaranjados com grossos óculos pretos...que quase sempre atua em seus próprios filmes, fazendo o seu alter-ego.

Um sujeito cínico, hipocondríaco e mais emotivo do que emocional. Mas acima de tudo, um romântico assumido.

Por isso mesmo, gerou "A Rosa Púrpura do Cairo" (The Purple Rose of Cairo,EUA,1985). Que na minha opinião, ao lado de "Cantando na Chuva" e "Cinema Paradiso", é uma das mais belas e autêntica declaração de amor ao cinema.

O filme recebeu uma indicação ao Oscar de melhor roteiro e logo caiu no gosto popular, por falar da paixão entre fãs de cinema, para com os filmes projetados na telona. Pois o que vai se desenrolar na trama, é a paixão do protagonista de um filme por uma espectadora que pula da tela para conhecê-la.

Cecília (Mia Farrow, esposa de Allen na época), é uma garçonete da Nova Jersey dos anos trinta. Uma mulher de vida monótona, infeliz no seu casamento com o bruto Monk (Danny Aiello). Cecília passa os dias sonhando acordada no trabalho, com os filmes que viu no cinema de bairro e vez por outra apanha do marido. Sua fuga para essa dura realidade, é o próprio cinema em sí. Algo que na realidade não é muito diferente. Pois, quantas vezes não nos escondemos naquela sala escura para usarmos como uma válvula de escape dos problemas diários?

Cecília é apaixonada por filmes de amor, algo na qual ela sonha em ver na realidade, um romantismo lírico como o dos filmes de sua época. E é isso que vai acontecer com Cecília e o fugido explorador do filme Tom Baxter (Jeff Daniels).

"A Rosa Púrpura do Cairo" funciona mais do que uma comédia, é uma fábula maravilhosa, algo como um conto de fadas de Hollywood. O que ajuda a tudo isso, é que Woody Allen foge daqueles temas mais intelectuais de suas tramas, fazendo o filme deslizar com leveza diante dos nossos olhos, tornado-o num passatempo para todos aqueles que gostam de comédias e principalmente, aos fãs da sétima arte.

Um filme que enche a boca de sorriso, os olhos de lágrimas e o coração de esperança.

Cotação: Excelente